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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Disfarces de uma pessimista

Quando a boneca de pano toma forma, o mundo se assusta. Assusta-se pois uma falta de delicadeza assim, tão enorme, é demodê. Porque ser duro com o mundo é ser gigante aos indivíduos. Tudo balela. A boneca não sofre dores, não chora de saudade ou desilusão. Não. A boneca vive sorrindo, com seus babados a agradar os milhões de pares de olhos que a cercam. Ela não muda por medo de se mostrar, medo de sair do armário e gritar aos mil cantos o quanto viveu de olhos. Assim é o que se faz perceber. Ver o mundo como ele é, e só. Não é pessimismo, devaneio ou pura grosseria. A realidade deve ser bebida em longos goles, demorados e mornos, de acordo com o humor. Eu brindo a uma realidade que não será mais confundida com ignorância, mas com a sabedoria da dúvida. Uma verdade bendita, que emudece os corações moles e dá forças aos mais racionais. Pessoas, compreendam de uma vez por todas: viver não é só achar partes doces de um sonho ou destruí-los com base em desilusão. Viver é, na maior parte do tempo, experimentar as centenas de sensações que nos são dadas. É olhar nos olhos e dizer a verdade, mesmo que ela seja dura ou apenas ideológica. Sim, todos mentimos também. Sim, temos dias de bom e mau humor. Esse vai e vem de partículas de solidão forma o que conhecemos por momento. Enquanto eu puder sorrir, pular, chorar, gritar, demonstrar minhas teorias mirabolantes e ler meus livros velhos...Bem, eu serei tão feliz quanto pinto no lixo. Mas, quando me dizem que minhas palavras demonstram dureza e pessimismo...Ah! Nó na garganta, isso é certo. Não me importo da dissonância entre nossos tons. Sou dura, sim. Pessimista, posso até ser. Mas, tenho certeza de uma coisa: isso faz de mim a pessoa que muitos conhecem e gostam (ou fingem gostar). E, por decência à minha personalidade um tanto quanto louca, não mudo. Não agora, não tem porquê. Me amem ou me odeiem. Eu sou assim e ponto final (ou quem sabe umas belas reticências para provar meu senso de otimismo inconsciente)...

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ode ao Livro

"Um cheiro: de páginas.
Tanto faz se velhas ou novas;
Brancas ou amareladas
Mas sempre o mesmo vício.

O método: as palavras.
Métrica, versos soltos,
Não importa...
Mas sempre a história.


Uma sensação: o toque.
O leve roçar de dedos pelas capas aleatórias
Ou vontade de pousar sob um dos mistérios...
Mas sempre o contato.


Então, um mundo...
Pois um só mundo nunca trouxe!!
Deu-lhes o deleite das mil maravilhas
E dos dragões, e dos castelos, e dos amores, e das mortes...

Por fim, apesar de desvendado o segredo da felicidade,
Contou-lhes mais histórias...
Criou gula em mentes enferrujadas
Mostrou a felicidade solitária.

Dessa solidão, por si efêmera e doce,
Surgiram os Quixotes, as Cecílias, as Clarices...
Quando preferia-se o vil metal
Ainda pensavam os Drummond's, os Pessoas, os Nerudas...

E, assim, nosso mundo gira
Nosso, não! Dos outros...
Daqueles que enchem seus bolsos de dinheiro, do nosso suor!
Dos que idolatram a tela brilhante como índios quinhentistas.

Pois o "nosso" mundo é plural,
Sem semântica...Um pouco mais de paixão!
Nele existem bicicletas voadoras, pensadores suicidas e Casmurros amantes...
Há vida!

Encerro com as mais sinceras desculpas.
Por qualquer arrependimento ou abandono!
Ah, caro Livro...
Perdoe-lhes a rotina e a própria indulgência.

Mal sabem eles que não haverá mudança
Sem que exista cultura.
Ou sabem...
E preferem a escuridão da certeza cega."

Em homenagem ao Dia Mundial do Livro, eis uma história belíssima aos amantes de páginas:

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Derradeiro


Irei, assim como tu. E não será esse o sentido da corrente? Somos arrastados pelas águas da vida, sem saber o modo ou destino. Sentimos apenas os braços frios d'água, que nos amedrontam e acolhem periodicamente ou as labaredas flamejantes de uma esfera loura. Sem endereço ou direção, mas com o eterno deleite do momento, acompanhado de incontáveis e exuberantes tragos de uma bebida chamada dúvida. Mãe de todos os vícios, capaz de inebriar qualquer ser pensante, causando incerteza sobre o sentido que leva ao céu ou ao abismo. Meu maior prazer é nada saber desse destino meu, mas ter certeza de minha própria capacidade de duvidar. Sinto o calor da brasa e os braços gélidos. No entanto, nada me importa mais do que a brisa que me toca os cabelos ou a chuva que me acaricia o rosto. Eu irei, assim como tu. Rumo ao já desnudo fim.
domingo, 15 de janeiro de 2012

A razão que nada corrói


Mil interrogações rondam a vida de qualquer ser humano cheio de sanidade (ou não...). Mas, em muitos casos, a curiosidade extrapola e o indivíduo morre de gula pelas respostas alheias. Sou apaixonada por um poema de Leminski que responderia a qualquer leitor a razão pela qual escrevo. Mas aquelas palavras são tão dele que me sinto pequena demais para usá-las em justificativas. Caros amigos, o que escrevo não é pra se ler apenas com os olhos. Eu escrevo o que sinto da melhor maneira possível para que vocês o descubram nas várias frequências humanas e individuais. As palavras para mim têm um significado precioso e delicado. Repito: para mim. Meu amor pela palavra escrita é mais um necessidade do que uma vontade. Mas, antes de tudo, eu escolho as palavras das quais utilizarei para que vocês, leitores, sintam o que quero expressar. Sei que acabo sendo repetitiva por diversas vezes, falando sobre a beleza da vida ou os erros do passado. Mas preciso que vocês compreendam que jamais o faria se não tivesse certeza de que a beleza está nos olhos de quem vê e os erros são diferentes a cada um. Se hoje eu lhes entrego palavras de bem, sorrisos ou lágrimas é porque do amanhã não me resta certeza. Eis minha gota d'água no incêndio cotidiano. Sei que enquanto amanhece a pureza do céu toca cada um de nós à sua maneira e que no decorrer do dia temos sensações variadas, sejam elas doídas ou não. Mas eu também sei que quando a lua se transborda no manto azul e milhares de estrelas se colocam a brilhar, alguém estará olhando na mesma direção que eu. Minhas palavras aqui são a lanterna para que essa pessoa saiba que não está sozinha no silêncio do anoitecer, também conhecido como vida. Cada um tem esse objeto em suas mãos e o utiliza de acordo com o que lhe convém. Eu escrevo. E só.

P.S.: Existirá alguma razão capaz de corroer?
sábado, 7 de janeiro de 2012

Quatro estações


Dê-me um verão de sol claro 
e te escreverei um poema doce como o canto dos pássaros. 
Dê-me a primavera em flor 
e criarei uma assimetria calorosa em sua própria simplicidade.
Entrega-me aquele outono de folhas espalhadas pelo chão. 
Deste, bordarei um sorriso de versos soltos.
E então, só então, mostra-me o inverno. Não farei muito a seu respeito...
Estarei ocupada demais amando-o.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O sorriso

 
Enquanto a cidade se mantém num caos cotidiano eu, que um dia serei adubo aos narcisos, fico sem ar frente o punhado de versos guturais. Sorrio diante minha própria ignorância humana. Não sei organizar minhas palavras para podê-las expressar senão no papel e, mesmo assim, não digo tudo. Sinto vontade de sentar à soleira da janela e o faço. Lá fora há transeuntes num passo frenético. Despontam expressões que apenas uma louca como eu poderia tentar compreender. De certa forma, todos sorriem para a vida. Afinal de contas, amanheceu. Ah, o sorriso. Ele tem mil formas e sentidos e, ainda assim, é apenas sorriso. Tem aqueles que nascem nos olhos e se demoram na face até morrer nos lábios. Outros que são amarelados ou polidos. Existem os que deduram a mentira ou o desejo. Alguns acompanham as lágrimas. Tem os que de tão sorriso viram gargalhada. E, por fim, aqueles que só existem para encantar, vivendo nos cantos de lábios. O que faz do sorriso algo tão especial é a maneira com que o indivíduo o usa. Após tal reflexão me pego sorrindo novamente. E se nós, humanos, tivéssemos a capacidade de sorrir como as crianças? Bem, nós temos o método. Mas nos falta a vontade. Como os seres mais inteligentes da Terra deveríamos procurar menos motivos e mais naturalidade. Quem sabe assim, com cada sorriso não podemos fazer feliz o dia de um outro alguém? Pois eu sei que se sorrio a um estranho na rua esse mesmo riso poderá voltar para mim através da disseminação. Não custa tentar. E, viu leitor, talvez você não me veja hoje, amanhã ou semana que vem...Mas saiba que estarei te sorrindo através de cada verso meio meu, meio teu. Você pode entregá-lo a um outro alguém? Obrigada.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Manhã de sol



Não sou a maior fã de dias de céu azul e sol à pino, mas hoje me encanto. Uma brisa leve dança com as folhas de um verde vivo, um farfalhar doce de ouvir. Sinto o aroma do pé de limão que se mistura com o perfume de flores multicoloridas que se espalham no quintal. Sei que nesse momento meu violão descansa sob a cama recém arrumada e o café deixa seu gosto marcante em minha boca. Me sinto impedida de notar a manhã como um todo, tenho fome de detalhes. Agora o vento bagunça os cabelos da criança brincalhona do outro lado da rua, que sorri como se fosse a primeira vez que tal coisa lhe ocorre. O sol começa a devorar a sombra onde me abrigo. Encolho-me como que por reflexo. Não será esse o maior problema da existência humana? Assistimos ao show da vida encantados, mas assustamo-nos frente ao raio de luz que nos devora a zona privada do conforto. Uma palavra: medo. E apenas isso. Hoje desisto dessa companhia, estou me abandonando ao além do receio. Estico minhas pernas lentamente. Começo a sentir o calor queimar meus pés. Dessa vez, sorrio de alegria e desdém ao obstáculo imposto pelas amarras metafóricas.. Sinto a ironia de um queimar que me oferece abrigo. Liberto-me de mim mesma ao som dos passarinhos no céu azul.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Começo e fim


O mundo girou. Mudou meu rumo e o doido movimento das minhas pernas. Dos tropeços da vida tão recente, tão fresca e já tão velha. Velha. Palavra cheia de sentidos e pesos. Digo velha sim, sem mais explicações. Mas essa mudança me deu um novo caminho, que parece até ser doce. Uma reviravolta me fez repensar muito e criar ainda mais. Criar minhas novas expectativas, meus mais novos versos ritmados. A continuidade ainda me acompanha em certas manias: meu vício por chuva e seu cheiro sob as flores recém caídas; uns acordes socorristas; o prazer da palavra escrita e cantada; meu café forte e não muito doce. Uma vida de manias antigas que me fazem tão bem. Mas agora, enquanto toca a canção calma e limpa, eu penso no que me espera. Ou será que eu espero? A vida tem muito disso: esperas, atrasos e adiantamentos. Quem sabe, nessas minhas tantas neurastenias, eu não acabe encontrando uma outra alternativa, um meio termo de ouro que me deixe usar os mesmos conceitos nas horas certas? Quem sabe eu não me atraso na palavra dolorida, me adianto no reflexo do instante ou espero a próxima mudança arrebatadora...Enquanto isso, deixo-me largada no calor tardio seguido pela chuva de verão. E lá se foi o mundo girando mais uma vez. Até logo...Até mais...Adeus!
segunda-feira, 28 de novembro de 2011

É-se. Sou-me. Tu te és.


O instante acaba de acontecer e você nem ao menos fechou os olhos e fez um pedido. Sim, desejo cheio de pureza. Momento de lucidez e escuridão. Passou...Passou...Passou. Vai sorrir quando o próximo segundo findar? Vai lembrar da primeira ideia, aquela por detrás do pensamento? A canção está devorando sua estupidez enquanto minhas palavras te mostram um emaranhado sem fim. Uma pergunta rondando: quem sou eu? A resposta é simples: sou. Independentemente do que você lê. Eu sou o que tento descobrir. A cada segundo que passa...que passou mais uma vez. Querendo a palavra última que já se confunde com a primeira. Se bagunçando no real de uma mente à esquerda de quem entra e faz estremecer o mundo. O instante passará, o que você sonhará ao fim da oração?
quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Aliterário


Vê a ventania bater galhos na janela
Colhe as flores molhadas de pétalas gélidas
Para na praça pra ver a primavera
Percebe as pessoas posando de réplicas.
Conta quanta lua te resta no céu coxo da memória
Olha no olho do futuro, mas mantém o pé presente no agora
Cuidado com o que não te pertenceu, pra não sonhar de falsa história
Ouça o som reverberar no corpo e interagir com a aurora.
Sinta saudade do que já foi seu e siga as canções
Lê um lento literato de aliterações
Deixa de brigar com o que vem de dentro e me diz
Mas lembra: ainda sou aprendiz.
domingo, 6 de novembro de 2011

Amiga grande


Alguém bem sábio me disse pra parar de carregar o que não me pertence. E eu parei. Depois de tanto tempo tentando colocar ordem ao caos das pessoas rotineiras, vi que minhas risadas começaram a juntar pó. Uma camada espessa de preocupação e tristeza. Fui-me enferrujando e travando nos detalhes, nas brigas e dores dos outros. E quando o mundo quis ruir, alguém me acordou pra um universo que hoje chamo de meu. Esse alguém tem pouco mais de um metro e cinquenta de altura, mas tem um coração enorme. É doida, doidinha...É a melhor amiga que posso pedir. O mais interessante é que quando algo dá errado eu volto pras minhas memórias tentando sentir aquele abraço que só ela pode me dar, tento ouvir sua risada sonora ou seus passinhos frenéticos no assoalho da biblioteca. E quando consigo, fico exultante. Taí minha felicidade. Mas o bom mesmo é saber que nós vamos morrer bem velhinhas, bem gagás...Como é bom ter uma amiga grande!
sexta-feira, 4 de novembro de 2011

As paixões humanas



"Eu considero inteligente o homem que em vez de desprezar este ou aquele semelhante é capaz de o examinar com olhar penetrante, de lhe sondar por assim dizer a alma e descobrir o que se encontra em todos os seus desvãos. Tudo no homem se transforma com grande rapidez; num abrir e fechar de olhos, um terrível verme pode corroer-lhe as entranhas e devorar-lhe toda a sua substância vital. Muitas vezes uma paixão, grande ou mesquinha pouco importa, nasce e cresce num indivíduo para melhor sorte, obrigando-o a esquecer os mais sagrados deveres, a procurar em ínfimas bagatelas a grandeza e a santidade. As paixões humanas não têm conta, são tantas, tantas, como as areias do mar, e todas, as mais vis como as mais nobres, começam por ser escravas do homem para depois o tiranizarem.Bem-aventurado aquele que, entre todas as paixões, escolhe a mais nobre: a sua felicidade aumenta de hora a hora, de minuto a minuto, e cada vez penetra mais no ilimitado paraíso da sua alma. Mas existem paixões cuja escolha não depende do homem: nascem com ele e não há força bastante para as repelir. Uma vontade superior as dirige, têm em si um poder de sedução que dura toda a vida. Desempenham neste mundo um importante papel: quer tragam consigo as trevas, quer as envolva uma auréola luminosa, são destinadas, umas e outras, a contribuir misteriosamente para o bem do homem."
(Nikolai Gogol)
terça-feira, 25 de outubro de 2011

D'attente à la fenêtre

Espero.
Espero o dia em que as nuvens serão apreciadas como devem
Algodões que nos avisam um sol futuro
Aguardo o momento em que o sorriso ultrapassará palavras ríspidas
E a ironia será diferente de sarcasmo
Vou esperar o tempo em que me será fácil apreciar um abraço sincero
Uma flor, um espinho,
O calor do carinho...
Aguardo os versos soltos e entupidos de veracidade
Sem rodeios. Discurso direto. Sem preposição.
À moda gramatical.
Com o som de um simples sujeito: Eu.
Que grita e surra diariamente.
Me provoca de dentro, causando tremor
E me mantém viva.
Não. Não vou depender da ideia de ninguém
Não confio o bastante para meu eu virar nós
Que só serve pra enrolar, torcer e marcar.
Cuido de mim de maneira limpa
Não minto nas palavras ou na voz cancioneira
Aprendi que pra dor ou por ela não se mente
E quando o fazemos, prorrogamos
Não tem valia. Devemos concordar.
Mas então, já te contei que eu espero?
sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Poema das Onze e meia


"Vozes bailam em minha mente
Dançam a valsa do amanhecer
O bolero da tarde
E embalam um ninar junto à lua.
Quando o sorriso me brota
Ouço sons afinados de alegria
Se a lágrima cai
Sinto o burburinho do alento
E ao ouvir outras vozes, elas respondem:
- "Gosto tanto, tanto quanto, como quando..."
Calam as vozes.
Algumas vezes sinto que me faltam
Outras me deixam livre demais
Em outros momentos são abafadas
Pelo choro mudo, pelas cordas vocais
Pelo som da gargalhada.
Mas nem sempre as ouço
Porque, apesar dos pesares
Existem vozes que me gritam de fora:
-"Amo tanto, tanto quanto, sem ter quando..."
São vozes familiares aos ouvidos
Doces do coração
Amigas d'alma
Sim. Vozes bailam em minha mente
Dançam a valsa do amanhecer
O bolero da tarde
Embalam o sonhar das onze e meia
E eu durmo de embriaguez...
SO....NO....LEN...TA!"
quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Palavra vã, loucura sã.


Já escrevi tanto. As palavras estão se gastando. Os sinônimos faltam. Os olhares se derretem por hora. E eu sempre querendo meu sossego. Meu acalanto, o meu bem. Não vou revolucionar sua cabeça. Não quero mudar a tua concepção de vida. Só espero que minhas palavras não passem em branco por você. Na verdade, nem sei mesmo se espero isso. Cada um com seu cada um. E eu com a minha confusão de cada dia. Eu vou sentir o máximo possível e para sempre. Não importa o que você me diga. Eu sou assim. Bicho estranho. Mas, pensando bem, estranhos são vocês. Sim, vocês. Me dizem coisas lindas sobre a vida, mas não me olham nos olhos. Seguram minhas mãos no frio, no verão não me dirigem a palavra. E quando eu, que vocês chamam de amiga, tento dizer o que penso dessa hipocrisia barata, escuto milhares de pedras caindo sobre minha cabeça. Mas vocês deixaram de ser hipócritas ao se acomodarem? Por acaso preferiram deixar o papel social de lado para descobrir o próximo? Não. Pelo contrário, viraram bonecos tortos que se vendem sem qualquer argumento. Eu vou viver minha confusão, e você tente sair do marasmo sozinho. Ou então me deixe sentir a vida, sem sua ignorância rondando meu teto de vidro.
terça-feira, 4 de outubro de 2011

Dúvida saborosa

"Não tenho o dom das frases feitas" já dizia uma cantora brasileira. Partilho do sentido desta frase. Nem ao menos sei se tenho um dom. Tento alcançar o leitor com o pouco que me fica gasto nas palavras diárias. Sim, a realidade cansa. Não por ser tediante, mas pelo turbilhão de hipocrisia e desalento em cada olhar, cada gesto. Eu sou pobre de aventuras e sorrisos falsos. Mas posso lhe afirmar, caro amigo, sou eterna amante dos detalhes e análises. Creio na dúvida imortal e indubitável, pois sem ela não haveria a sede do novo, a descoberta. A curiosidade é fome de mudança, de conceito sentido e paupável. Sábio daquele que não abandona sua curiosidade e vive, eternamente, sendo chamado de criança louca. Tal indivíduo ganhará minha admiração por toda eternidade. Ao menos o que conheço dela.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Ciclos vitais

Era apenas uma garotinha. Presa num corpo de moça. Cantarolava em meio ao tédio rotineiro. Suas preciosidades se encontravam nos livros, pois era neles que se libertava. Vivia em sonhos, devaneios. Nunca colocando em prática. Mas essa garotinha acordou. Como que em um abrir de olhos. Ela já não calaria. Acatar já não faria parte de seu dicionário. Sua opinião passou a importar. Apercebeu-se que uma palavra deixava mais marcas que um tapa com rastro de vermelhidão. E cresceu. Deixou-se absorver pela beleza e fez dela seu ninho. Criou seu próprio mundo, que agora seria pura realidade. Aprendeu a falar de igual para igual, com respeito. Parou de fingir sorrisos. Voltou a dar gargalhadas com gosto e a derramar as lágrimas contidas. Ela sorriu pro mundo e se deixou saborear o momento. Tempo este que ela espera não mais cessar, apenas evoluir na medida do possível, sem tentar ser gente grande antes mesmo de se descobrir jovem. Porque não há maior verdade que a de sentir com a alma e tentar descobrir os valores desta. E aquela garotinha contida, que se modificou com o tempo e aprendeu com as pedras do caminho, hoje se tornou em uma pessoa cheia de manias e confusão. Mas ao errar, se permitiu viver. Sem delimitações. Agora, essa garota tem amigos verdadeiros e esqueceu a sensação de receio ao contar seus pensamentos enquanto conversam. Agora ela se deixa levar pelo bom o velho sorriso encantador e se permite apreciar o próximo. Hoje, essa garota sou eu. Pura e simplesmente.
sábado, 27 de agosto de 2011

Lágrimas de primavera


E quando faltar o dia ensolarado do teu sorriso, que se faça presente o calor de sua canção. Quando eu precisar de seu colo, que eu sinta seu amor no simples "Olá!". Se eu precisar de ti para secar minhas lágrimas ou segurar minhas mãos, que eu lembre de seu olhar. Mas quando você precisar de mim, saiba que meu amor é eterno e puro. Vai além de um sentimento carnal e cheio de ranhuras. Sentir este que te liberta da dor do passado ou do peso das decisões do presente. Te deixo livre para sonhar tua realidade, sem palavras limitadoras. Não uso de conselhos escritos em letras formais, uso meu olhar quando possível ou meu silêncio em meio as lágrimas distantes. Tento me expressar na minha própria confusão, sabendo que só esse meu amor, que sinto por tão poucas pessoas, será capaz de salvar o mundo. Ao menos o meu, naqueles dias nublados de corpo e alma.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Ideal particular

Observo. Sim, parece fácil e tediante. Mas eu observo. Sei que meu mundo é feito de possibilidades e minha estrada de marcas. De minha vida, já não sei. Simplesmente me deixo viver. E vejo. Vejo os ingredientes de minhas tramas sentimentais serem-me entregues sem a mínima percepção. Um sorriso aqui... uma lágrima ali... um abraço acolá. Eu observo. Eu vejo. Eu sinto. E me deixo viver. E por ver tanto e sentir mais ainda, é que conheço as pessoas. Nesse meu caminho tortuoso encontro pessoas de todos os gêneros. Doces e amargas. Sorridentes e reclamonas. De quintas e segundas-feiras. Elas me cativam por serem diferentes. Conquistam meus olhos com suas excentricidades. Com suas palavras bondosas ou duras quando preciso for. Afinal de contas, ninguém é autosuficiente o bastante para viver sozinho. Vejo pessoas mudando personalidade por culpa de hipocrisia social. Vejo e entristeço. Acredito que a essência é valiosa o bastante para não se perder, apenas moldar, se necessário for. Não há o que compre ou que compare-se ao prazer de ver autenticidade nas palavras, na canção, nos gestos, nos olhos. Seja você, independentemente do que há ao seu redor. E, dessa forma, faça meu segundo de devaneio parecer uma eternidade. Faça-o valer a pena, e eu lhe agradecerei pelo resto de minha existência.
segunda-feira, 25 de julho de 2011

Se faltam as palavras, o sorriso!

Ontem parei para refletir se alguém, assim como eu, já pensou na morte de uma pessoa pouco conhecida mas muito querida. Acredito que muitos já. Mas o fato é que depois de um telefonema recebido lá pelo anoitecer de um dia qualquer, eu parei para pensar. Meu peito doeu fundo. Não era sobre morte que a pessoa do outro lado da linha falava, mas sobre a doença e a dor enfrentada por duas pessoas queridas por mim e minha família. Meus tios.
Um dia após esse dia qualquer (que não foi nem de longe insignificante) viajei rumo a casa deles. Ao chegar lá, encontrei minha tia bem debilitada, mas usando de todas as forças para ajudar meu tio, que não conseguia sair da cama. Entrei no quarto com um sorrisinho meio bobo dançando nos lábios. Fui até o lado de sua cama e disse, baixinho: "Tio, lembra do violão? Então, trouxe para o senhor ouvir o que já aprendi!". Ele de imediato abriu um sorriso bonito e pediu ajuda para sentar , o que não fazia desde que saiu do hospital. Ajudamos ele a se sentar e me arrumei na cadeira para tocar "uns acordes". Meu objetivo era distraí-lo e mostrar que segui o rumo no qual ele mesmo me inspirou. Eu cantei a plenos pulmões e não percebi que ele havia fechado os olhos para melhor me ouvir. Quando estava para terminar a canção eu o olhei e senti me inundar algo que jamais havia conhecido antes: alegria pura e simples.
Para aquele momento eu não tenho uma só palavrinha que seja. Eu me aproveitei da alegria dele. E sei que jamais esquecerei aquele momento.
A tarde foi repleta de minhas canções de iniciante no violão, mas a voz me ajudou, confesso. Eu sorria de todo, assim como meu tio. Ele, assim como todas as vezes que o visitamos, tornou a me contar a sua história com minha tia. Cheia de peripécias e muito amor. Aquele amor verdadeiro e puro, que quando mesmo após 60 anos de casados, ainda assim olham-se com ternura. Onde aquele rapaz transparesse no olhar de homem senil, mas de boa memória. Ele finalizou a história olhando para minha tia, que estava na porta do quarto, e sorri alegremente. Torna a me olhar e diz: "Ela foi a melhor coisa que já me aconteceu. Eu a amo e agradeço todas as noites a Deus por ter me permitido uma vida ao lado dela". Sei que jamais conseguirei imaginar um sem o outro, pois se completam de todo. Esse sim, é o amor verdadeiro. Que ultrapassa os limites da razão humana. Esse sentimento é sentido por todos ao redor. Sentimento que talvez minha juventude não seja capaz de conhecer. Mas a história de ambos ficará para um outro "dia qualquer, mas de importância", mesmo porque, hoje, eu queria contar meu cotidiano. A felicidade que compartilhei com uma pessoa que agora me é bem conhecida, e extremamente amada. Meu tio, por partilhar aquele sorriso com uma pobre descrente, que agora crê, ao menos nos sorrisos de olhos fechados.