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domingo, 29 de setembro de 2013
Bom dia, tristeza!
Ventania.
Cai o telhado da minha romaria.
Meus cabelos se arrepiam com tanta mudança.
Tanta lambança.
Bagunça que me tira o pó das coisas.
Tenho sido levada, assim.
Tudo está de cabeça para baixo.
Perco gente. Acho e reencaixo.
E dói, viu...
Luto contra o que me forma.
Luto contra minha luta.
E me desfaço em solidão e cansaço.
A dúvida ronda.
Monta morada e faz a festa.
E, enquanto venta aqui dentro, silencio.
"Foge!".
Eu fico. Digo e repito.
Ventania,
Vê se me deixa p r a l á .
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domingo, 7 de outubro de 2012
Em busca de quê?
Quando sonhar já não supre, socorra-te. Grite por si mesmo (e tente não se perder). Porque o sonho, veja bem, é um espécie de bicho. Bicho este que cresce e ilude. Dá forças inimagináveis para manter o rumo. Mas não te conta sobre a queda. No entanto, àqueles que fogem de seus próprios sonhos não entendem a beleza de se desiludir. Não é hipocrisia barata (será?). É simples ver mas difícil de acreditar: para respirar é preciso ter um objetivo. O mesmo ocorre em nossas histórias: para viver é preciso ter um sonho. Não tem que ser doce demais ou amargo de menos. Tem que ser sonho. Daqueles que se encontra de supetão. Olhando nos olhos e assustando-se com algo tão seu. É tanta semelhança que chega a dar arrepios. Mas o anseio de sonhar é maior do que qualquer medo. Essa é a vantagem de se compreender que onde há luz também há sombra: aprende-se a conviver com o obscuro de se sonhar. Talvez seja apenas isso: uma repetição eterna das mesmas palavras, das mesmas histórias, dos mesmos monstros...Tenha força para olhá-los nos olhos, caro amigo. Vale a pena levar tombos, se após isso tua reação for limpar os joelhos e buscar um novo rumo. Agora dê-me licença pois vou encontrar com meu monstro, ops, sonho.
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segunda-feira, 11 de junho de 2012
Cativa-me pela necessidade
Entrou naquele cubículo pouco iluminado e sentiu-se no paraíso. Fechou os olhos e tentou captar cada segundo por sua fragrância. Não conseguiu de todo. Haviam mais três mulheres naquele lugar, todas "matando" o tempo e buscando suas velhas e boas amigas, as revistas culinárias. Ela não. Apenas vivia o tempo em cada passagem suave de dedos pelas capas duras e surradas daqueles livros. Eram mágicos. Eis que a vendedora lhe quebra o encanto e pergunta: "Posso ajudar?". Não, não podia...Ela não queria "comprar", ela queria reviver cada uma das histórias que estavam ali. Tirar do pó e dar-lhes vida, existência através da leitura compassada e cheia de deleite. Ah, a vendedora não compreendia. Parecia até rir-se por dentro. Cada louco que aparece naquele sebo. Quando ela saiu, carregava um sacola com alguns gibis e quatro livros. Foi cativada, jamais cativou. O que era regra, contrariou-se. Aquelas páginas amareladas davam-lhe o sopro de vida que faria de sua semana algo um pouco mais aturável. Aquilo era um vício: tragava as estórias como quem tem abstinência de pessoas e sensações. E, quando iam-se acabando as páginas, derrubava-se sobre ela um nuvem espessa de tristeza e solidão. Sentia-se oca. Até a próxima visita àquele mundo caridoso em que nada nem ninguém poderiam alcançá-la. Assim raiavam os dias de uma compradora de sonhos.
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segunda-feira, 23 de abril de 2012
Ode ao Livro
"Um cheiro: de páginas.
Tanto faz se velhas ou novas;
Brancas ou amareladas
Mas sempre o mesmo vício.
O método: as palavras.
Métrica, versos soltos,
Não importa...
Mas sempre a história.
Uma sensação: o toque.
O leve roçar de dedos pelas capas aleatórias
Ou vontade de pousar sob um dos mistérios...
Mas sempre o contato.
Então, um mundo...
Pois um só mundo nunca trouxe!!
Deu-lhes o deleite das mil maravilhas
E dos dragões, e dos castelos, e dos amores, e das mortes...
Por fim, apesar de desvendado o segredo da felicidade,
Contou-lhes mais histórias...
Criou gula em mentes enferrujadas
Mostrou a felicidade solitária.
Dessa solidão, por si efêmera e doce,
Surgiram os Quixotes, as Cecílias, as Clarices...
Quando preferia-se o vil metal
Ainda pensavam os Drummond's, os Pessoas, os Nerudas...
E, assim, nosso mundo gira
Nosso, não! Dos outros...
Daqueles que enchem seus bolsos de dinheiro, do nosso suor!
Dos que idolatram a tela brilhante como índios quinhentistas.
Pois o "nosso" mundo é plural,
Sem semântica...Um pouco mais de paixão!
Nele existem bicicletas voadoras, pensadores suicidas e Casmurros amantes...
Há vida!
Encerro com as mais sinceras desculpas.
Por qualquer arrependimento ou abandono!
Ah, caro Livro...
Perdoe-lhes a rotina e a própria indulgência.
Mal sabem eles que não haverá mudança
Sem que exista cultura.
Ou sabem...
E preferem a escuridão da certeza cega."
Em homenagem ao Dia Mundial do Livro, eis uma história belíssima aos amantes de páginas:
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sábado, 3 de março de 2012
Um salto. Um segundo. Uma descoberta.
Uma curta história judaica, com brilho e encanto...
"Era uma vez um pai que queria que seu filho perdesse o medo, se tornasse um menino cheio de coragem. Então, todos os dias colocava-o sob um pequeno morro e dizia: "Pula, que eu te seguro!". O garotinho sempre pulava. Quando o pai o agarrava, ele se sentia amado. Quando não, ele sentia outra coisa...Vida!"
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Derradeiro

Irei, assim como tu. E não será esse o sentido da corrente? Somos arrastados pelas águas da vida, sem saber o modo ou destino. Sentimos apenas os braços frios d'água, que nos amedrontam e acolhem periodicamente ou as labaredas flamejantes de uma esfera loura. Sem endereço ou direção, mas com o eterno deleite do momento, acompanhado de incontáveis e exuberantes tragos de uma bebida chamada dúvida. Mãe de todos os vícios, capaz de inebriar qualquer ser pensante, causando incerteza sobre o sentido que leva ao céu ou ao abismo. Meu maior prazer é nada saber desse destino meu, mas ter certeza de minha própria capacidade de duvidar. Sinto o calor da brasa e os braços gélidos. No entanto, nada me importa mais do que a brisa que me toca os cabelos ou a chuva que me acaricia o rosto. Eu irei, assim como tu. Rumo ao já desnudo fim.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012
O velho e a Rosa
Foi sempre uma boa pessoa. Quando criança sua maior diversão era subir pelas laranjeiras do quintal, mostrando seus dentes brancos e olhos cor de chocolate. Sorria diante os animais que o adoravam. Na juventude ateve-se aos mistérios dos livros, em busca de tornar-se um alguém na vida. O tempo passou. Não casou-se. Buscando, entre muitas perguntas, a resposta que lhe traria alívio ao coração: o que era amor?
Mesmo vindo de uma família abastada, preferiu trabalhar para procurar pelo mundo tal resposta. Como sempre fora humilde, não se importava de ser gari ou bibliotecário...Mas nunca esqueceu seu objetivo. Rodou o mundo e nada descobriu. Ele encontrou em seu caminho muitas pessoas, de diferentes idades e rostos. Um dia, resolveu que não descobriria o que era esse tal de "amor" se não conversasse sinceramente com cada um ao seu redor. Voltou pra casa, numa cidadezinha interiorana. Lembrou-se da praça central e rumou, com seu livro nas mãos, ao desconhecido que poderia lhe dar esperança. Sentou-se no banco e começou a observar as flores que cercavam a fonte. Pombinhas andavam de um lado ao outro, bicando as migalhas no chão. Haviam crianças correndo, casais enamorados e a sombra de um belo carvalho. Não percebeu que um menino, em especial, observava-o enternecido. Olhou o garoto e sorriu. E esse mesmo sorriso foi retribuído com candura. Como que em uma fração de segundo, ele percebeu que aquilo era amor. "Mas como pode ser tão simples e, ainda assim ser amor?", pensou o velho homem. Continuou a observar. Sentiu uma garotinha sentar-se ao seu lado, com uma boneca no colo. Cumprimentou-a. A menina cantarolava uma cançãozinha desafinada de criança alegre. Perguntou ao nosso herói o que ele tinha nas mãos.
–– É um livro.
–– Hum, ele tem desenhos?
–– Não, mas tem uma bela história. Fala sobre um homem em busca de uma resposta.
–– Qual a pergunta? –– indagou a garotinha, cheia de curiosidade e divertimento no olhar.
–– Ele quer saber o que é o amor. –– disse, meio corado pela mentira sobre o livro.
–– Não é uma pergunta difícil. Por que o senhor lê um livro tão bobo?
–– Bobo?!
–– É, bobo...Talvez o senhor aprendesse mais sobre o amor vivendo ele. Quer saber o que eu acho sobre o amor?
O homem, já desnorteado pelas repostas da mocinha, sorriu e acenou com a cabeça. Sim, ele queria saber.
–– Eu acho que o amor é tudo que tem nessa praça. Amor é o modo como cada flor dessas mostra seu perfume sem pedir nada em troca, a não ser a luz do dia; amor é o jeito que aqueles jovens se olham e seguram nas mãos um do outro; amor são essas pombinhas que passeiam sem se importar com nosso descaso; amor é aquele cachorro ali, que lambe o dono, mesmo tendo o menino batido nele agora a pouco; amor é o que tinha nas mãos das pessoas que plantaram essa árvore velha, que hoje nos dá sombra...Amor é o que o senhor carrega nos olhos e nem percebeu a resposta se olhando no espelho. Então eu digo, o seu livro não é tão bobo assim. O senhor é que tem um problemão, esqueceu de ser como eu, curiosa por esses detalhes. Tem muito mais amor por aí. O senhor vai procurar?
O homem tinha lágrimas nos olhos. Pensou no quanto andou, viajou e viu pelo mundo afora. Quanto tempo ele havia perdido e nem ao menos percebeu que não tinha nada de tão valioso. Precisou voltar àquele banco velho de praça e ouvir de uma garotinha, uma criança, que amor era tudo aquilo que ele havia perdido enquanto procurava.
–– Não, meu bem, eu não vou mais procurar. Eu vou tentar viver o que me resta... –– disse, quase a meia voz, nosso velho personagem.
–– O senhor encontrou a resposta, né?
–– Encontrei.
Ele estendeu a mão calosa pela idade e afagou os cabelos loiros da criança. Ele havia encontrado a resposta.
–– Qual seu nome, querida?
–– É Rosa.
Na primavera seguinte nosso herói veio a falecer. Em seu velório haviam várias pessoas que o conheceram naquela mesma praça. Alguns pensavam que ele era um tipo de jardineiro aposentado, pois todos os dias punha-se a aguar as plantas e cuidar do velho carvalho. Passava as tardes tratando dos pássaros e inventando jogos para as crianças do lugar, criou até mesmo um grupo de debates entre os jovens interessados em literatura. Em meio aquelas pessoas que vinham se despedir, havia um garotinha loira que chorava inconsolavelmente. Sua mãe pegou-a nos braços e perguntou o motivo de tanta tristeza.
–– É que ele não teve tempo mamãe –– dizia Rosa, calada pelos soluços. Enxugando as lágrimas, conseguiu esboçar um sorriso –– Ele não teve tempo pra provar pro mundo o que eu ensinei pra ele. Ele se foi, simples assim.
Passaram-se anos e as pessoas mantiveram o ritmo de suas vidas. A praça continuava bela e perfumada, cuidada agora pelos próprios moradores. O que ninguém sabia era que, em meio a tantas flores de campo multicoloridas, havia uma especial...Era uma rosa branca, representando um ser que no passado descobrira a felicidade ali, naquele lugar encantado. Enfim, amor era uma fração de segundos, constituída de pequenos detalhes.
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domingo, 15 de janeiro de 2012
A razão que nada corrói
Mil interrogações rondam a vida de qualquer ser humano cheio de sanidade (ou não...). Mas, em muitos casos, a curiosidade extrapola e o indivíduo morre de gula pelas respostas alheias. Sou apaixonada por um poema de Leminski que responderia a qualquer leitor a razão pela qual escrevo. Mas aquelas palavras são tão dele que me sinto pequena demais para usá-las em justificativas. Caros amigos, o que escrevo não é pra se ler apenas com os olhos. Eu escrevo o que sinto da melhor maneira possível para que vocês o descubram nas várias frequências humanas e individuais. As palavras para mim têm um significado precioso e delicado. Repito: para mim. Meu amor pela palavra escrita é mais um necessidade do que uma vontade. Mas, antes de tudo, eu escolho as palavras das quais utilizarei para que vocês, leitores, sintam o que quero expressar. Sei que acabo sendo repetitiva por diversas vezes, falando sobre a beleza da vida ou os erros do passado. Mas preciso que vocês compreendam que jamais o faria se não tivesse certeza de que a beleza está nos olhos de quem vê e os erros são diferentes a cada um. Se hoje eu lhes entrego palavras de bem, sorrisos ou lágrimas é porque do amanhã não me resta certeza. Eis minha gota d'água no incêndio cotidiano. Sei que enquanto amanhece a pureza do céu toca cada um de nós à sua maneira e que no decorrer do dia temos sensações variadas, sejam elas doídas ou não. Mas eu também sei que quando a lua se transborda no manto azul e milhares de estrelas se colocam a brilhar, alguém estará olhando na mesma direção que eu. Minhas palavras aqui são a lanterna para que essa pessoa saiba que não está sozinha no silêncio do anoitecer, também conhecido como vida. Cada um tem esse objeto em suas mãos e o utiliza de acordo com o que lhe convém. Eu escrevo. E só.
P.S.: Existirá alguma razão capaz de corroer?
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sábado, 7 de janeiro de 2012
Aos amigos de capa
Eu agradeço. Por cada segundo ao seu lado. Pelos momentos de aflição dos quais tu me tirou. Livrou-me o peso dos ombros com suas palavras numerosas e significativas. Cada oração nos unia mais e mais e quando por fim, nossa história acabava, sentia como que obrigada a mais uma dose de você. Partia em nova busca, louca sanidade, completa em paradoxos. Caminhava até te encontrar e trazer-te de volta. Mas você nunca foi o mesmo. Sempre com um novo mundo a me dar. Ah, como você é doce!
Eu agradeço. Por cada dia de chuva que ajudou-me a aproveitar. Pelos dias de ócio dos quais me tirava, dando-me inspiração. E agora, que leio suas páginas amarelentas e perfumadas pelo tempo, tento imaginar quantos indivíduos te amam como eu. Serão muitos? Pensarão da mesma forma sobre você? Será que te protegem da poeira da estante? Eu não sei. Só sei que você será meu companheiro até minhas retinas cansadas se renderem. E mesmo assim, eu lhe garanto, encontrarei um alguém que me contará suas histórias, para que nunca nos precisemos separar. Pois o que me importa não é ter olhos às letras, mas sim, à beleza da vida. Você me ensinou isto, ter olhos de poeta. Obrigada, meu bom e velho livro.
Eu agradeço. Por cada dia de chuva que ajudou-me a aproveitar. Pelos dias de ócio dos quais me tirava, dando-me inspiração. E agora, que leio suas páginas amarelentas e perfumadas pelo tempo, tento imaginar quantos indivíduos te amam como eu. Serão muitos? Pensarão da mesma forma sobre você? Será que te protegem da poeira da estante? Eu não sei. Só sei que você será meu companheiro até minhas retinas cansadas se renderem. E mesmo assim, eu lhe garanto, encontrarei um alguém que me contará suas histórias, para que nunca nos precisemos separar. Pois o que me importa não é ter olhos às letras, mas sim, à beleza da vida. Você me ensinou isto, ter olhos de poeta. Obrigada, meu bom e velho livro.
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Feito pra acabar
O ano está acabando, sim. Seria redundância minha te contar que houveram
mudanças durante este período. O mundo continua a girar. É a lei da
vida. Mas a essência do bicho humano não se altera. Eu usaria de
hipocrisia, teria prazer em fazê-lo, ao lhe entregar palavras falando
sobre um passado bonito, de um ano corrido ou sobre um futuro cheio de
brilho e expectativas. Não sou hipócrita, sinto muito. Posso te contar
um segredo. Quer? Se não, pare por aqui (sinto que você continuará).
Então se prepare. Sabe, existe um sujeito que pode mudar seu mundo. Esse
ser é confuso, é estranho em sua própria simplicidade e tem um punhado
de magia dentro de si. Esse sujeito é você, amigo. Só você poderá escolher as lembranças que não irão pesar
no bolso (lá vou eu falando de passado novamente!) ou projetar algo que
te leve a transformar sonho em realidade. Não é a vida que moverá as
pedras do caminho. Não é o ano que se transforma para ser bom ou ruim.
Não são minhas palavras que mudarão seu modo de pensar (mas, por favor,
me dê um pouquinho de crédito). Também tenho certeza que você sabe isso mas, de alguma maneira, esquece e se mantém reclamando do que passou ou pedindo um futuro mais açucarado. A resposta é você. E só. Pense bem e, quem sabe, no
fim de 2012 poderá sorrir das memórias, parar de fugir da chuva gelada
do passado e ter certeza de que não sabe nada do que irá acontecer no
ano vindouro...E que essa é a vantagem!
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domingo, 18 de dezembro de 2011
Manhã de sol

Não sou a maior fã de dias de céu azul e sol à pino, mas hoje me encanto. Uma brisa leve dança com as folhas de um verde vivo, um farfalhar doce de ouvir. Sinto o aroma do pé de limão que se mistura com o perfume de flores multicoloridas que se espalham no quintal. Sei que nesse momento meu violão descansa sob a cama recém arrumada e o café deixa seu gosto marcante em minha boca. Me sinto impedida de notar a manhã como um todo, tenho fome de detalhes. Agora o vento bagunça os cabelos da criança brincalhona do outro lado da rua, que sorri como se fosse a primeira vez que tal coisa lhe ocorre. O sol começa a devorar a sombra onde me abrigo. Encolho-me como que por reflexo. Não será esse o maior problema da existência humana? Assistimos ao show da vida encantados, mas assustamo-nos frente ao raio de luz que nos devora a zona privada do conforto. Uma palavra: medo. E apenas isso. Hoje desisto dessa companhia, estou me abandonando ao além do receio. Estico minhas pernas lentamente. Começo a sentir o calor queimar meus pés. Dessa vez, sorrio de alegria e desdém ao obstáculo imposto pelas amarras metafóricas.. Sinto a ironia de um queimar que me oferece abrigo. Liberto-me de mim mesma ao som dos passarinhos no céu azul.
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Começo e fim

O mundo girou. Mudou meu rumo e o doido movimento das minhas pernas. Dos tropeços da vida tão recente, tão fresca e já tão velha. Velha. Palavra cheia de sentidos e pesos. Digo velha sim, sem mais explicações. Mas essa mudança me deu um novo caminho, que parece até ser doce. Uma reviravolta me fez repensar muito e criar ainda mais. Criar minhas novas expectativas, meus mais novos versos ritmados. A continuidade ainda me acompanha em certas manias: meu vício por chuva e seu cheiro sob as flores recém caídas; uns acordes socorristas; o prazer da palavra escrita e cantada; meu café forte e não muito doce. Uma vida de manias antigas que me fazem tão bem. Mas agora, enquanto toca a canção calma e limpa, eu penso no que me espera. Ou será que eu espero? A vida tem muito disso: esperas, atrasos e adiantamentos. Quem sabe, nessas minhas tantas neurastenias, eu não acabe encontrando uma outra alternativa, um meio termo de ouro que me deixe usar os mesmos conceitos nas horas certas? Quem sabe eu não me atraso na palavra dolorida, me adianto no reflexo do instante ou espero a próxima mudança arrebatadora...Enquanto isso, deixo-me largada no calor tardio seguido pela chuva de verão. E lá se foi o mundo girando mais uma vez. Até logo...Até mais...Adeus!
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segunda-feira, 28 de novembro de 2011
É-se. Sou-me. Tu te és.
O instante acaba de acontecer e você nem ao menos fechou os olhos e fez um pedido. Sim, desejo cheio de pureza. Momento de lucidez e escuridão. Passou...Passou...Passou. Vai sorrir quando o próximo segundo findar? Vai lembrar da primeira ideia, aquela por detrás do pensamento? A canção está devorando sua estupidez enquanto minhas palavras te mostram um emaranhado sem fim. Uma pergunta rondando: quem sou eu? A resposta é simples: sou. Independentemente do que você lê. Eu sou o que tento descobrir. A cada segundo que passa...que passou mais uma vez. Querendo a palavra última que já se confunde com a primeira. Se bagunçando no real de uma mente à esquerda de quem entra e faz estremecer o mundo. O instante passará, o que você sonhará ao fim da oração?
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quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Aliterário

Vê a ventania bater galhos na janela
Colhe as flores molhadas de pétalas gélidas
Para na praça pra ver a primavera
Percebe as pessoas posando de réplicas.
Conta quanta lua te resta no céu coxo da memória
Olha no olho do futuro, mas mantém o pé presente no agora
Cuidado com o que não te pertenceu, pra não sonhar de falsa história
Ouça o som reverberar no corpo e interagir com a aurora.
Sinta saudade do que já foi seu e siga as canções
Lê um lento literato de aliterações
Deixa de brigar com o que vem de dentro e me diz
Colhe as flores molhadas de pétalas gélidas
Para na praça pra ver a primavera
Percebe as pessoas posando de réplicas.
Conta quanta lua te resta no céu coxo da memória
Olha no olho do futuro, mas mantém o pé presente no agora
Cuidado com o que não te pertenceu, pra não sonhar de falsa história
Ouça o som reverberar no corpo e interagir com a aurora.
Sinta saudade do que já foi seu e siga as canções
Lê um lento literato de aliterações
Deixa de brigar com o que vem de dentro e me diz
Mas lembra: ainda sou aprendiz.
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domingo, 13 de novembro de 2011
Teu sorriso te declara, teu segredo só te faz refém

Ah palhacinho! Sorri pro mundo de coração. Teu nariz rubro faz a alegria de crianças, de corpo e alma. Mas quando você chora, meu querido, o mundo fica cinza. Não por notarem tua tristeza, pois seus gracejos continuam intactos. Mas por uma lágrima solitária que lhe dança na face. Olha pra mim, palhacinho, mostre-me o segredo dos seus olhos escuros e ternos. Conta tua vida agridoce, cheia de sol e dia nublado. Descubra-te deste manto cruel de vida cotidiana e deixa o espírito correr livre, contagiante. E me faz feliz. Nasce, meu palhaço. Existe, meu Pierrot. Chora da dança maldita que todos ritmamos, mas depois lembra que seu sorriso salva os passos. Sente a dor momentânea, pois amanhã você lembrará do calor dos raios de sol na tua janela. E vai sorrir.
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domingo, 6 de novembro de 2011
Amiga grande

Alguém bem sábio me disse pra parar de carregar o que não me pertence. E eu parei. Depois de tanto tempo tentando colocar ordem ao caos das pessoas rotineiras, vi que minhas risadas começaram a juntar pó. Uma camada espessa de preocupação e tristeza. Fui-me enferrujando e travando nos detalhes, nas brigas e dores dos outros. E quando o mundo quis ruir, alguém me acordou pra um universo que hoje chamo de meu. Esse alguém tem pouco mais de um metro e cinquenta de altura, mas tem um coração enorme. É doida, doidinha...É a melhor amiga que posso pedir. O mais interessante é que quando algo dá errado eu volto pras minhas memórias tentando sentir aquele abraço que só ela pode me dar, tento ouvir sua risada sonora ou seus passinhos frenéticos no assoalho da biblioteca. E quando consigo, fico exultante. Taí minha felicidade. Mas o bom mesmo é saber que nós vamos morrer bem velhinhas, bem gagás...Como é bom ter uma amiga grande!
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sexta-feira, 4 de novembro de 2011
As paixões humanas

"Eu considero inteligente o homem que em vez de desprezar este ou aquele semelhante é capaz de o examinar com olhar penetrante, de lhe sondar por assim dizer a alma e descobrir o que se encontra em todos os seus desvãos. Tudo no homem se transforma com grande rapidez; num abrir e fechar de olhos, um terrível verme pode corroer-lhe as entranhas e devorar-lhe toda a sua substância vital. Muitas vezes uma paixão, grande ou mesquinha pouco importa, nasce e cresce num indivíduo para melhor sorte, obrigando-o a esquecer os mais sagrados deveres, a procurar em ínfimas bagatelas a grandeza e a santidade. As paixões humanas não têm conta, são tantas, tantas, como as areias do mar, e todas, as mais vis como as mais nobres, começam por ser escravas do homem para depois o tiranizarem.Bem-aventurado aquele que, entre todas as paixões, escolhe a mais nobre: a sua felicidade aumenta de hora a hora, de minuto a minuto, e cada vez penetra mais no ilimitado paraíso da sua alma. Mas existem paixões cuja escolha não depende do homem: nascem com ele e não há força bastante para as repelir. Uma vontade superior as dirige, têm em si um poder de sedução que dura toda a vida. Desempenham neste mundo um importante papel: quer tragam consigo as trevas, quer as envolva uma auréola luminosa, são destinadas, umas e outras, a contribuir misteriosamente para o bem do homem."
(Nikolai Gogol)
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sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Poema das Onze e meia

"Vozes bailam em minha mente
Dançam a valsa do amanhecer
O bolero da tarde
E embalam um ninar junto à lua.
Quando o sorriso me brota
Ouço sons afinados de alegria
Se a lágrima cai
Sinto o burburinho do alento
E ao ouvir outras vozes, elas respondem:
- "Gosto tanto, tanto quanto, como quando..."
Calam as vozes.
Algumas vezes sinto que me faltam
Outras me deixam livre demais
Em outros momentos são abafadas
Pelo choro mudo, pelas cordas vocais
Pelo som da gargalhada.
Mas nem sempre as ouço
Porque, apesar dos pesares
Existem vozes que me gritam de fora:
-"Amo tanto, tanto quanto, sem ter quando..."
São vozes familiares aos ouvidos
Doces do coração
Amigas d'alma
Sim. Vozes bailam em minha mente
Dançam a valsa do amanhecer
O bolero da tarde
Embalam o sonhar das onze e meia
E eu durmo de embriaguez...
SO....NO....LEN...TA!"
Dançam a valsa do amanhecer
O bolero da tarde
E embalam um ninar junto à lua.
Quando o sorriso me brota
Ouço sons afinados de alegria
Se a lágrima cai
Sinto o burburinho do alento
E ao ouvir outras vozes, elas respondem:
- "Gosto tanto, tanto quanto, como quando..."
Calam as vozes.
Algumas vezes sinto que me faltam
Outras me deixam livre demais
Em outros momentos são abafadas
Pelo choro mudo, pelas cordas vocais
Pelo som da gargalhada.
Mas nem sempre as ouço
Porque, apesar dos pesares
Existem vozes que me gritam de fora:
-"Amo tanto, tanto quanto, sem ter quando..."
São vozes familiares aos ouvidos
Doces do coração
Amigas d'alma
Sim. Vozes bailam em minha mente
Dançam a valsa do amanhecer
O bolero da tarde
Embalam o sonhar das onze e meia
E eu durmo de embriaguez...
SO....NO....LEN...TA!"
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quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Palavra vã, loucura sã.

Já escrevi tanto. As palavras estão se gastando. Os sinônimos faltam. Os olhares se derretem por hora. E eu sempre querendo meu sossego. Meu acalanto, o meu bem. Não vou revolucionar sua cabeça. Não quero mudar a tua concepção de vida. Só espero que minhas palavras não passem em branco por você. Na verdade, nem sei mesmo se espero isso. Cada um com seu cada um. E eu com a minha confusão de cada dia. Eu vou sentir o máximo possível e para sempre. Não importa o que você me diga. Eu sou assim. Bicho estranho. Mas, pensando bem, estranhos são vocês. Sim, vocês. Me dizem coisas lindas sobre a vida, mas não me olham nos olhos. Seguram minhas mãos no frio, no verão não me dirigem a palavra. E quando eu, que vocês chamam de amiga, tento dizer o que penso dessa hipocrisia barata, escuto milhares de pedras caindo sobre minha cabeça. Mas vocês deixaram de ser hipócritas ao se acomodarem? Por acaso preferiram deixar o papel social de lado para descobrir o próximo? Não. Pelo contrário, viraram bonecos tortos que se vendem sem qualquer argumento. Eu vou viver minha confusão, e você tente sair do marasmo sozinho. Ou então me deixe sentir a vida, sem sua ignorância rondando meu teto de vidro.
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segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Ciclos vitais
Era apenas uma garotinha. Presa num corpo de moça. Cantarolava em meio ao tédio rotineiro. Suas preciosidades se encontravam nos livros, pois era neles que se libertava. Vivia em sonhos, devaneios. Nunca colocando em prática. Mas essa garotinha acordou. Como que em um abrir de olhos. Ela já não calaria. Acatar já não faria parte de seu dicionário. Sua opinião passou a importar. Apercebeu-se que uma palavra deixava mais marcas que um tapa com rastro de vermelhidão. E cresceu. Deixou-se absorver pela beleza e fez dela seu ninho. Criou seu próprio mundo, que agora seria pura realidade. Aprendeu a falar de igual para igual, com respeito. Parou de fingir sorrisos. Voltou a dar gargalhadas com gosto e a derramar as lágrimas contidas. Ela sorriu pro mundo e se deixou saborear o momento. Tempo este que ela espera não mais cessar, apenas evoluir na medida do possível, sem tentar ser gente grande antes mesmo de se descobrir jovem. Porque não há maior verdade que a de sentir com a alma e tentar descobrir os valores desta. E aquela garotinha contida, que se modificou com o tempo e aprendeu com as pedras do caminho, hoje se tornou em uma pessoa cheia de manias e confusão. Mas ao errar, se permitiu viver. Sem delimitações. Agora, essa garota tem amigos verdadeiros e esqueceu a sensação de receio ao contar seus pensamentos enquanto conversam. Agora ela se deixa levar pelo bom o velho sorriso encantador e se permite apreciar o próximo. Hoje, essa garota sou eu. Pura e simplesmente.
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