domingo, 29 de setembro de 2013

Bom dia, tristeza!


Ventania.
Cai o telhado da minha romaria.
Meus cabelos se arrepiam com tanta mudança.
Tanta lambança.
Bagunça que me tira o pó das coisas.
Tenho sido levada, assim.
Tudo está de cabeça para baixo.
Perco gente. Acho e reencaixo.
E dói, viu...
Luto contra o que me forma.
Luto contra minha luta.
E me desfaço em solidão e cansaço.
A dúvida ronda. 
Monta morada e faz a festa.
E, enquanto venta aqui dentro, silencio.
"Foge!".
Eu fico. Digo e repito.
Ventania,
Vê se me deixa p  r    a        l     á     .
domingo, 1 de setembro de 2013

Ela


Em algum momento de sua vida, você acordará com as garras do medo sob seu corpo. No meio da madrugada. E você não terá como recorrer a ninguém. Nesta hora, não se desespere, meu bem... Acontece. Aconteceu. Acontecerá novamente. O nome disso é solidão e todos estamos fadados a conhecê-la. Apesar disso, apesar do vai e vem angustiante e das visitas noturnas da senhora solidão, a gente sobrevive. Carrega um peso vazio, é verdade, mas sobrevive. A gente trabalha, come, dorme, sonha, chora e ri. A gente sofre de uma dor chata como espinho que lateja, mas se acostuma. Então, encontramos alguém que anestesia essa dor. Faz a solidão se afastar. Faz a noite mais quente e o dia mais rápido. A gente então não sobrevive. Se vive. Se abre. Se descobre. Se machuca. Como que num piscar de olhos, você se vê quase sozinho. Sim, quase. Você vai sempre ter a solidão. Todos carregamos ela, lembra? Você vai voltar a trabalhar, comer, dormir, sonhar, chorar e a rir também. Vai conhecer outro alguém. Vai viver, cair e voltar pra solidão. Acontece. Aconteceu. Acontecerá novamente. Um conselho te dou: nessa noite, se agasalha bem. A solidão gosta de se aproveitar de corações frios e almas quentes. Fecha a janela.Os olhos. E se agarre a si mesmo. Ela vai bater e irá embora. Você irá lembrar do ciclo doloroso. Vai derramar uma lágrima e dormirá. Pela manhã, já passou. Até que a próxima noite chegue. Acho que é a isso que alguns atribuem o nome de insônia. Pra mim, é só tristeza.
sábado, 1 de junho de 2013

O Jardim que não existiu



Era uma vez uma escolinha bem pequena, apesar do tão óbvio diminutivo. Acontece que essa escola tinha no máximo 15 salas. Era um recanto de crianças do pré à 4ª série (se isso fizer sentido pra você leitor é porque está ficando velho). Eu estudei lá. Amei lá. Fiquei de castigo no banco gelado perto da cantina. Ahh, sim! Já ia me esquecendo: a cantina. Não que eu fosse gulosa. Ok, eu era. Enfim, já me perco do caminho. Era uma vez... Um muro coberto de trepadeiras. Ele ficava do lado da cantina, sabe? Eu era pequena e não tinha lá muitos amigos. Por ser gordinha não era a maior fã de super corridas no pátio. Ficava ali, meio encostada no muro, procurando uma passagem secreta. É, eu assisti ao filme "O jardim secreto" e me encantei. Pra mim tinha que haver uma porta lá, era absurdo que não houvesse. Eu queria meu jardim, e ponto final! Todos os dias, me lembro bem, eu passava o recreio procurando uma passagem, um símbolo, um sinal... Qualquer coisa. Eu só queria que minha imaginação pudesse trazer alguma realidade. Ninguém nunca soube disso, leitor. Então, me dê um crédito. Segredo de Estado, sabe como é, né?! Bom, hoje eu tive um daqueles flashs de memória. Lembrei disso como se estivesse lá. O cheiro, a gritaria dos meus coleguinhas, a textura daquele muro. Me deu saudade. Eu quis voltar pra lá e contar pra mim mesma que a ficção não deve ser provada. Tem que ser saboreada, pois se tivesse gosto de realidade seria azeda ou amarga. Não conheço criança que goste destes sabores. Deixa crescer e verá. Mas, como não posso, fico por aqui mesmo. Contando minhas histórias e sonhando com os meus muros. Quem sabe um dia eu encontro meu jardim? Quem sabe um dia você me mostra, hein leitor? E aí, só aí, eu posso dizer bem alto: "Era uma vez...".
quarta-feira, 1 de maio de 2013

Esquece e vai sorrir.


– Alô?
– Alô, quem fala?
– Oi, mano...
– Beto, é você?
– É...
– São 3 da madrugada, está tudo bem?
– Mano, lembra da Helena que eu criei? 
– Como assim? O que está acontecendo?
– Era minha melhor personagem. Eu lembro disso. Só disso.
– Lembro bem dela, e dos outros. Você sempre foi bom escritor. Mas podemos falar disso amanhã?
– Não.
– Por quê? Estou morrendo de sono. 
– Porque eu preciso lembrar. Me ajuda, mano.
– Se eu te ajudar, posso dormir?
– Pode.
– Tá bom, então. Você quer saber da Helena, né? Ela  era aquela personagem linda, de personalidade forte e que se apaixona por um canalha. Ela casa com ele e morre na final da trama. Mas, apesar do fim, qualquer um queria conhecer a Helena. Está bom assim?
– Hmm...
– Mais alguma coisa?
– Tem, sim... Eu não consigo me lembrar. Não consigo saber nem mais onde estou. Preciso de socorro. E se eu me esquecer de tudo que já criei? Mano...
– Calma, Beto. Vai ficar tudo bem. Amanhã nós vamos procurar um médico. Que tal? Você não vai se esqu...
– Já me esqueci. Se eu me perder deles, que será de mim?
– Confia em mim. Sou teu irmão mais novo, mas estou aqui. Você não vai se perder de si mesmo!
– Posso te pedir mais uma coisa?
– Sempre.
– Quero te ligar todas as noites enquanto esse tormento durar. Só você pode me contar sobre cada uma das obras que criei.
– Ligue. Vai ser um prazer te contar. 
– (...)
– (...)
– Beto, você está aí?
– (...)
– Beto??
– Alô. Quem fala?
(E a linha fica muda como o som que habita a mente de Beto. Eis as cegueiras da alma e da memória.)
quarta-feira, 6 de março de 2013

RESENHA DE CLARO ENIGMA


RESENHA: Claro Enigma.
AUTOR: Carlos Drummond de Andrade.
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1951.
ESCOLA LITERÁRIA:  3ª Fase do Modernismo.
CARACTERÍSTICAS DA OBRA: Uso da métrica rigorosa na poesia.
LINGUAGEM: Poética.
 
 Nesta obra, Drummond passa a focar temas abstratos como solidão, vida, morte e humanidade em geral. O isolamento rotineiro e tédio fazem desta obra modernista uma referência ao existencialismo niilista. O "Claro Enigma" é dividido em seis partes, sendo caracterizadas da seguinte maneira:
I) Entre o Lobo e o Cão: na primeira parte do livro as poesias Drummondianas remetem à efemeridade da vida. É neste capítulo que encontra-se o soneto "Oficina Irritada", tendo a primeira referência ao termo Claro Enigma, com sentido de um desafio fácil (pode-se referir ao fato de criar o próprio poema).
II) Notícias Amorosas: Durante a segunda parte há referência ao amor puro e apaixonado, às tristezas e memórias reunidas durante o caminho vivido.
III) O menino e os Homens: Há passagem da fase infantil para a morte precoce (no sentido figurado), tendo em vista a adaptação humana e acomodação na rotina.
IV) Selo de Minas: referência à inconfidência mineira.
V) Os lábios cerrados: mais um capítulo citando solidão, tristeza e consequente fim do ser humano sem ter realmente aproveitado a vida.
VI) A máquina do mundo: Percebe-se um elo entre natureza e criações humanas, sempre com o quesito fim sendo trazido à baila. 
 
Drummond mostra nesta obra a facilidade em chocar e seduzir os leitores ávidos e adocicar fatos cotidianos. Demonstra a passagem do tempo e nos encanta com sua combinação de delicadeza e veracidade. Carlos Drummond de Andrade prova sua realidade aos olhos mais astutos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Resenha de Fogo Morto

RESENHA: Fogo Morto.
AUTOR: José Lins do Rego.
DATA DE PUBLICAÇÃO: 1943.
ESCOLA LITERÁRIA: 2ª Fase do Modernismo.
CARACTERÍSTICAS DA OBRA: É considerada um documento sociológico e histórico.
LINGUAGEM: Popular do Paraíba.

Personagens:
  • Mestre José Amaro: trabalhador branco e livre. Possui forte orgulho por sua cor. Sabe das explorações sociais vindouras dos senhores de engenho, mas não as aceita. Mesmo sem poder alterar a sociedade brasileira, não se deixa calar. Odeia o Coronel José Paulino.
  • Coronel Lula de Holanda: representa a aristocracia arruinada dos engenhos. Tem poder feudal e moral, mas não econômico. O resultado de sua queda foi isolamento e apoio religiosos.
  • Vitorino Carneiro da Cunha: plebeu que abstrai-se do título de capitão. Gordo, alegre, espirituoso, corajoso. Esta personagem assemelha-se a uma união entre Sancho Pança e Dom Quixote.
  • Tenente Maurício: caracteriza-se pelo opressor. Comanda uma tropa de homens mais temíveis do que os próprios cangaços.
  • Negro passarinho: escravo recém libertado com vício em bebida.
  • Coronel José Paulino: Senhor de engenho rico e oportunista politicamente. Seu poder o faz destacar-se.
  • O cego torquato: personagem de ligação do cangaceiro Antônio Silvino.
  • Antônio Silvino: Cangaceiro, apoiado pelo seleiro, José Amaro.
  • Cabra Alípio: personagem extremamente devoto ao cangaço.
  • Adriana: esposa de Vitorino Carneiro da Cunha.
  • Sinhá: esposa de José Amaro. É odiada pelo marido em seus momentos de cólera.
  • Dona Amélia: esposa do Coronel Lula de Holanda. Representa a aristocracia feudal feminina. Moça prendada, educada na cidade e, agora, presa a tristeza do sertão nordestino.                                                         
Resenha:
Romance de feição realista, "Fogo Morto" é a décima obra de José Lins do Rego. Sendo a consagração do escritor, a obra é de cunho sociológico, sendo o foco as mudanças no Nordeste brasileiro desde o 2º Reinado ao início do século XX. O clímax se dá com a luta entre Senhores de Engenho e a Industrialização. Com a forte entrada industrial e aumento lucrativo no país, os Senhores de Engenho passaram ao pano de fundo, cultivando suas economias e terras de pouco valor, tratando-se de um "Fogo Morto".
O romance é a expressão cultural pois trata-se das diferenças e relações entre a Casa Grande e as Senzalas, como se estes estereótipos sociais fossem consequência do relacionamento entre ambas as classes.
Vídeos:

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Alma.


 A alma é uma criança aprisionada em um boneco de madeira. Enquanto milhares de pessoas olham aquele objeto engessado, a alma pulsa loucamente para que tentem perceber sua luz. Ela grita, embora ninguém a escute. Ela gesticula loucamente, mas ninguém nota. Por fim, se cala. A alma não morre, ela adormece...Esquece-se de sua própria limitação e deixa que aquele corpo rígido e bestial tome as rédeas do que poderia ser uma vida. A alma é mais do que orgulho. É amor. Enquanto o sol continua seu show, a alma espera um momento de glória, espera ser vida. Quando, finalmente consegue libertar-se é porque os moldes não bastaram. A alma é uma criança aprisionada em um boneco de madeira. Feliz.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

As resenhas estão de volta!


  Este ano de 2012 foi um tanto quanto pesado para mim. Muito tempo estudando e pouco tempo me divertindo. Apesar de todo o esforço não consegui alcançar meu objetivo: entrar na faculdade. Entretanto, tive pessoas maravilhosas que me deram apoio e me ajudaram a redescobrir minha força. Enfim, ano passado fiz uma resenha sobre cada obra do vestibular UFPR com objetivo de ajudar não apenas em minha memorização, mas auxiliar a outros vestibulandos (também conhecidos como sofredores rs). Hoje esta postagem traz a nova lista de livros e as obras que continuam na lista (já fiz grande parte destas resenhas). Anexarei aqui as resenhas já feitas e postarei o restante com o tempo. Desejem-me boa sorte e que venha o vestibular! 

Lista de livros UFPR: 
" * " indica que a resenha ainda não foi postada.

A última quimera (Ana Miranda)*

Claro enigma (Carlos Drummond de Andrade)*

Fogo morto (José Lins do Rego)*

Os dois ou o Inglês maquinista (Luís Carlos Martins Pena) http://www.moinhodeverso.blogspot.com.br/2012/03/os-dois-ou-o-ingles-maquinista.html

O bom crioulo (Adolfo Caminha)*

Poemas escolhidos de Gregório de Matos (José Miguel
domingo, 16 de dezembro de 2012

Haiku


Hoje conheci 
a pessoa mais triste do mundo.
Ela sorriu.
domingo, 7 de outubro de 2012

Em busca de quê?


Quando sonhar já não supre, socorra-te. Grite por si mesmo (e tente não se perder). Porque o sonho, veja bem, é um espécie de bicho. Bicho este que cresce e ilude. Dá forças inimagináveis para manter o rumo. Mas não te conta sobre a queda. No entanto, àqueles que fogem de seus próprios sonhos não entendem a beleza de se desiludir. Não é hipocrisia barata (será?). É simples ver mas difícil de acreditar: para respirar é preciso ter um objetivo. O mesmo ocorre em nossas histórias: para viver é preciso ter um sonho. Não tem que ser doce demais ou amargo de menos. Tem que ser sonho. Daqueles que se encontra de supetão. Olhando nos olhos e assustando-se com algo tão seu. É tanta semelhança que chega a dar arrepios. Mas o anseio de sonhar é maior do que qualquer medo. Essa é a vantagem de se compreender que onde há luz também há sombra: aprende-se a conviver com o obscuro de se sonhar. Talvez seja apenas isso: uma repetição eterna das mesmas palavras, das mesmas histórias, dos mesmos monstros...Tenha força para olhá-los nos olhos, caro amigo. Vale a pena levar tombos, se após isso tua reação for limpar os joelhos e buscar um novo rumo. Agora dê-me licença pois vou encontrar com meu monstro, ops, sonho.
sexta-feira, 13 de julho de 2012

Deus segundo Spinoza



"Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno. Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste
comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti."

sábado, 7 de julho de 2012

Literalmente

Hoje é dia de Rascunho, caros leitores!
Primeiro: O Rascunho é um jornal paranaense sobre literatura, senhores. Eu, como leitora assídua, me senti traindo o blog sem colocar sequer uma novidade sobre essa maravilha que acompanho. Tenho certeza que vocês adorarão (conto com a possibilidade de gostarem, no mínimo, de literatura crítica).
"Ah, mas você vai postar trezentos tipos de textos aqui?"...Não! Hoje trago-lhes algo mais rápido e, na minha mera opinião, mais eficaz do que muitas palavras bem escritas (ou digitadas, no caso).
Sem mais delongas, eis aqui a genialidade de Marco Jacobsen:














domingo, 24 de junho de 2012

Miranda July



Olá, Literatos!
Hoje sairei da rotina. Que tal?
Vamos falar um pouco sobre uma escritora, dramaturga, cineasta, atriz e musicista de mão cheia: Miranda July. 




Uma das produções da artista é  Eu, você e todos nós, uma comédia dramática que, além de produzida, é também estrelada por Miranda. Assistam ao trailer:


Outra obra muito interessante, também de sua autoria, é o livro É claro que você sabe do que estou falando. A obra reúne dezesseis contos sobre o cotidiano (ouso comparar com o estilo de Clarice ao escrever Felicidade Clandestina). A excentricidade cai como uma luva ao livro, combinando com o título um tanto quanto grandioso e atrativo. Recomendo! Para quem estiver curioso (como eu fiquei quando a descobri), eis um aperitivo aos gulosos literários:

Espero que gostem da novidade e, buona lettura!


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Cativa-me pela necessidade

Entrou naquele cubículo pouco iluminado e sentiu-se no paraíso. Fechou os olhos e tentou captar cada segundo por sua fragrância. Não conseguiu de todo. Haviam mais três mulheres naquele lugar, todas "matando" o tempo e buscando suas velhas e boas amigas, as revistas culinárias. Ela não. Apenas vivia o tempo em cada passagem suave de dedos pelas capas duras e surradas daqueles livros. Eram mágicos. Eis que a vendedora lhe quebra o encanto e pergunta: "Posso ajudar?". Não, não podia...Ela não queria "comprar", ela queria reviver cada uma das histórias que estavam ali. Tirar do pó e dar-lhes vida, existência através da leitura compassada e cheia de deleite. Ah, a vendedora não compreendia. Parecia até rir-se por dentro. Cada louco que aparece naquele sebo. Quando ela saiu, carregava um sacola com alguns gibis e quatro livros. Foi cativada, jamais cativou. O que era regra, contrariou-se. Aquelas páginas amareladas davam-lhe o sopro de vida que faria de sua semana algo um pouco mais aturável. Aquilo era um vício: tragava as estórias como quem tem abstinência de pessoas e sensações. E, quando iam-se acabando as páginas, derrubava-se sobre ela um nuvem espessa de tristeza e solidão. Sentia-se oca. Até a próxima visita àquele mundo caridoso em que nada nem ninguém poderiam alcançá-la. Assim raiavam os dias de uma compradora de sonhos.
domingo, 20 de maio de 2012

Poemas escolhidos de Gregório de Matos


Literatos, sinto muito por estar sem tempo para postagens e melhor elaboração de resenhas. No entanto, nada me impede de buscar blogs e sites de pesquisa sobre literatura em geral. Há algum tempo encontrei um blog (Mar de histórias: http://mardehistorias.wordpress.com/) muito interessante por sinal. Pois bem, unindo o útil ao agradável, resolvi postar aqui o link, contendo a resenha de Poemas escolhidos de Gregório de Matos e, para melhorar, o post deste blog contém um pouco sobre a história do nosso querido Boca Maldita. 
Espero ajudar e, mais uma vez, peço desculpas pela correria.

P.S.: Agradeço à querida Andreia Santana por me autorizar a utilizar o link aqui no blog :)
quinta-feira, 17 de maio de 2012

Disfarces de uma pessimista

Quando a boneca de pano toma forma, o mundo se assusta. Assusta-se pois uma falta de delicadeza assim, tão enorme, é demodê. Porque ser duro com o mundo é ser gigante aos indivíduos. Tudo balela. A boneca não sofre dores, não chora de saudade ou desilusão. Não. A boneca vive sorrindo, com seus babados a agradar os milhões de pares de olhos que a cercam. Ela não muda por medo de se mostrar, medo de sair do armário e gritar aos mil cantos o quanto viveu de olhos. Assim é o que se faz perceber. Ver o mundo como ele é, e só. Não é pessimismo, devaneio ou pura grosseria. A realidade deve ser bebida em longos goles, demorados e mornos, de acordo com o humor. Eu brindo a uma realidade que não será mais confundida com ignorância, mas com a sabedoria da dúvida. Uma verdade bendita, que emudece os corações moles e dá forças aos mais racionais. Pessoas, compreendam de uma vez por todas: viver não é só achar partes doces de um sonho ou destruí-los com base em desilusão. Viver é, na maior parte do tempo, experimentar as centenas de sensações que nos são dadas. É olhar nos olhos e dizer a verdade, mesmo que ela seja dura ou apenas ideológica. Sim, todos mentimos também. Sim, temos dias de bom e mau humor. Esse vai e vem de partículas de solidão forma o que conhecemos por momento. Enquanto eu puder sorrir, pular, chorar, gritar, demonstrar minhas teorias mirabolantes e ler meus livros velhos...Bem, eu serei tão feliz quanto pinto no lixo. Mas, quando me dizem que minhas palavras demonstram dureza e pessimismo...Ah! Nó na garganta, isso é certo. Não me importo da dissonância entre nossos tons. Sou dura, sim. Pessimista, posso até ser. Mas, tenho certeza de uma coisa: isso faz de mim a pessoa que muitos conhecem e gostam (ou fingem gostar). E, por decência à minha personalidade um tanto quanto louca, não mudo. Não agora, não tem porquê. Me amem ou me odeiem. Eu sou assim e ponto final (ou quem sabe umas belas reticências para provar meu senso de otimismo inconsciente)...

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Anjo Negro


 Escrita em 1964, a obra Anjo Negro caracteriza-se pelo apogeu do escritor Nelson Rodrigues na área de literatura teatral brasileira. O autor teve por objetivo demonstrar o racismo da época, deixando claro a relação entre negros no teatro, sendo restritos a comédias e pouca valorização como atores. O trunfo de Nelson encontra-se em modificar a questão preconceituosa provando que, feliz ou infelizmente, há preconceito entre indivíduos de mesma raça, bem como o oposto. Também nota-se a questão política pela qual o Brasil passava (crise vindoura do governo Vargas e Golpe Militar em 1964, modificando completamente a forma de governo). Quando lançada ao público, a peça Anjo Negro foi censurada e liberada apenas em 1966.
 O enredo discorre num espaço pequeno, contando apenas com a casa dos personagens e seu quintal. Se desenvolve no decorrer de 15 anos, tendo altos e baixos de acordo com surgimento de conflitos entre os personagens principais, que são:
  • Ismael: médico negro, inescrupuloso e violento. Ismael tem extremo repúdio de pessoas negras e amor a cor branca. Cega seu irmão (branco) e sua "filha", sendo que no segundo caso mente à menina para enganá-la, dizendo-se o único branco na terra e homem puro de corpo e alma. Suas reações são brutais, nota-se pelo isolamento de sua esposa, Virgínia.
  • Virgínia: esposa de Ismael. É branca e é violentada pelo marido. No início da trama, conta-se que a personagem sente desejo pelo noivo de sua prima e se deixa possuir. Sua prima, ao descobrir o caso entre os dois, se enforca. A tia de Virgínia se vinga da sobrinha planejando o estupro da mesma por Ismael. A principal característica desta personagem é a capacidade de usar de sexualidade para se livrar (ou se prevenir) das violências do marido. Tal característica a salva no fim da trama.
  • Elias: irmão de criação de Ismael. É branco e traiu o irmão com Virgínia, engravidando-a de Ana Maria, menina também branca e que, assim como o pai legítimo, é cegada por Ismael.
  • Ana Maria: filha do caso extraconjugal de Virgínia e Elias, Ana é inexpressiva e só aparece realmente no terceiro ato da obra. É abusada sexualmente e enganada pelo pai de criação, Ismael.
  • Tia de Virgínia: mulher violenta e vingativa. Tem extremo ciúme e mania protetora pelas filhas que lhe sobraram (após a morte de sua filha que estava noiva), que são chamadas por ela de "velhas e encalhadas".
 A astúcia utilizada por Nelson Rodrigues provou sua capacidade como escritor fiel aos fatos cotidianos e ignorados, tendo como método chocar o leitor, demonstrando através de seus personagens extremistas e problemáticos o que poucos autores tiveram coragem de mostrar na época: a realidade.


Para complementar a resenha, disponibilizo aqui no blog a análise feita no canal da Gazeta do Povo. Não consta o nome do professor responsável pela mesma, peço desculpas aos leitores.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ode ao Livro

"Um cheiro: de páginas.
Tanto faz se velhas ou novas;
Brancas ou amareladas
Mas sempre o mesmo vício.

O método: as palavras.
Métrica, versos soltos,
Não importa...
Mas sempre a história.


Uma sensação: o toque.
O leve roçar de dedos pelas capas aleatórias
Ou vontade de pousar sob um dos mistérios...
Mas sempre o contato.


Então, um mundo...
Pois um só mundo nunca trouxe!!
Deu-lhes o deleite das mil maravilhas
E dos dragões, e dos castelos, e dos amores, e das mortes...

Por fim, apesar de desvendado o segredo da felicidade,
Contou-lhes mais histórias...
Criou gula em mentes enferrujadas
Mostrou a felicidade solitária.

Dessa solidão, por si efêmera e doce,
Surgiram os Quixotes, as Cecílias, as Clarices...
Quando preferia-se o vil metal
Ainda pensavam os Drummond's, os Pessoas, os Nerudas...

E, assim, nosso mundo gira
Nosso, não! Dos outros...
Daqueles que enchem seus bolsos de dinheiro, do nosso suor!
Dos que idolatram a tela brilhante como índios quinhentistas.

Pois o "nosso" mundo é plural,
Sem semântica...Um pouco mais de paixão!
Nele existem bicicletas voadoras, pensadores suicidas e Casmurros amantes...
Há vida!

Encerro com as mais sinceras desculpas.
Por qualquer arrependimento ou abandono!
Ah, caro Livro...
Perdoe-lhes a rotina e a própria indulgência.

Mal sabem eles que não haverá mudança
Sem que exista cultura.
Ou sabem...
E preferem a escuridão da certeza cega."

Em homenagem ao Dia Mundial do Livro, eis uma história belíssima aos amantes de páginas:

terça-feira, 17 de abril de 2012

Quando um oceano não me basta

  
"Um dia, em uma cidade na beira do mundo, a maré saiu e nunca mais voltou. O mar sumiu sem aviso prévio. A princípio as pessoas ficaram pouco mais do que intrigadas. Eles continuaram a fofocar e lutar pelas mesmas velhas coisas. Mas logo um silêncio começou a permear o município. Um deserto de magnitude inacreditável estava se formando diante de seus olhos. 
  Semanas se passaram e ainda não havia sinal do oceano. As pessoas ficaram preocupadas. Foi decidido enviar um pequeno grupo para procurá-lo na esperança de trazê-lo de volta. 
  À medida que os dias passavam, mais e mais pessoas procuravam. As pessoas pesquisavam o mais longe possível, mas o mar tinha desaparecido sem deixar vestígios. A terra tranquila e outrora generosa tornou-se dura e inflexível. Em seguida, uma forma apareceu no horizonte. Através de uma explosão de assombro, o povo viu o que parecia ser água caindo e rolando em direção a eles. Uma onda de excitação atravessou a cidade, que observava ansiosamente o retorno do oceano. Mas à medida que se aproximava, esta forma tranformava-se. O que parecia água caindo era de fato cavalos selvagens. Em todos os lugares em que eles olhavam, viam cavalos cada vez mais perto. A excitação voltou-se para o medo. E o medo se tornou pânico, pois parecia que nada poderia parar o seu avanço. Que, como o desaparecimento do oceano veio sem aviso. Mas então ninguém, nem mesmo por um momento, tinha parado para questionar por que o oceano deixou-lhes, em primeiro lugar. 
  As pessoas não tinham escolha a não ser confiarem que os cavalos iriam levá-los ao seu oceano. Sem rédeas ou selas, eles montaram os cavalos em toda a terra estéril. Mas o oceano tinha desaparecido para sempre. E o povo não teve escolha senão se enfrentar a solidão de sua perda. Eles fizeram uma casa para eles em um novo ambiente. Apesar de que seu mundo particular havia mudado para sempre. Eles aprenderam a viver no espaço que oceano havia deixado. Embora a ideia do mar continuasse a pairar sob seus sonhos, eternamente."

Conto extraído do filme "Um refúgio no passado", por Celia Steimer (personagem representada por Emily Barclay).
terça-feira, 27 de março de 2012

Os dois ou o inglês maquinista

Comédia de um só ato, escrita em 1845, Os dois ou o Inglês maquinista carrega uma denúncia interessante quanto a sociedade da época: a relação entre escravos e seus senhores. "Mas, já não havia o policiamento por parte dos ingleses com relação ao tráfico negreiro?". Sim, havia. No entanto, assim como hoje, ocorriam as ilegalidades tão gerais e lucrativas. O autor da obra, Martins Pena, consegue demonstrar com muita facilidade a questão tão bem conhecida de uma sociedade onde a ilegalidade tornara-se rotina. 
A trama desenvolve-se a partir de uma dúvida: desposar Mariquinha, sendo que a brasileirinha possui três pretendentes (Gainer, Felício e Sr. Negreiro). Gainer é um inglês astuto, que tem ideias mirabolantes a respeito de desenvolvimentos econômicos, lucrando com seus engenhos em cima de pessoas ingênuas e cheias de esperança. Sr. Negreiro é negociante de escravos jovens (conhecidos como meias-caras), também tem por objetivo o dote da moça. Felício é primo de Mariquinha e o único que realmente quer casar por amor. A peça narra os conflitos criados por Felício entre os dois outros concorrentes. No entanto, Dn. Clemência, mãe de Mariquinha, tem certa $impatia pelo Sr. Negreiro. O desfecho da peça é extremamente cativante e inusitado: o marido de Dn. Clemência, que havia desaparecido durante 2 anos, retorna e descobre, através de Negreiro, que a "suposta" viúva havia convidado Gainer a desposá-la (fato verídico na trama). Alberto (marido de Clemência) também escuta, escondido com Negreiro sob as cortinas da sala, que Felício e Mariquinha se amavam e estavam impossibilitados de consolidar tal união. Revolta-se e assusta a todos com sua aparição. Contudo, acaba por perdoar Clemência e abençõa o casamento entre os jovens Felício e Mariquinha.
Apesar das características um pouco românticas, Martins Pena consegue expôr o problema com relação aos escravos de maneira clara e crítica, de forma que o leitor compreenda a denúncia sem a utilização de metáforas ou rebuscamentos. Uma obra clássica da literatura brasileira que, merecidamente, será cobrada no vestibular da UFPR!